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Domingo, 05 Setembro 2010

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Carta do Leitor - Chinesices PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Sexta, 23 Julho 2010 14:19

Chinesices, ou porque o “perigo amarelo” já não é o que era…

Não deixa de ser irónico que, numa fase da História em que a China, já a definhar nos estertores finais do seu período imperial, era invadida, ocupada, roubada e submetida pelas potências europeias, tenha nascido o mito do “perigo amarelo”. Ou seja, as brilhantes tiradas de AJJ não são, propriamente, uma grande novidade…

 

 

Chinesices, ou porque o “perigo amarelo” já não é o que era…

 

Não deixa de ser irónico que, numa fase da História em que a China, já a definhar nos estertores finais do seu período imperial, era invadida, ocupada, roubada e submetida pelas potências europeias, tenha nascido o mito do “perigo amarelo”. Ou seja, as brilhantes tiradas de AJJ não são, propriamente, uma grande novidade…

O “perigo amarelo”, invocado por Guilherme II da Alemanha (esse “grande” político que, como todos nós sabemos, ajudou a cavar a sepultura para toda uma geração de jovens europeus...) em finais do séc. XIX, depressa encontrou o interesse de um público ávido de situações escabrosas e inquietantes, com pormenores suculentos para satisfazer a sua curiosidade mórbida pelas culturas mais exóticas, rendendo sustento para boa parte da literatura popular e da imprensa sensacionalista da época, para já não falar dessa deliciosa forma de comunicação que é o boato…

O “perigo amarelo” representava algo tão pérfido, astuto e subtilmente cruel, que o “chinês” não viria numa avassaladora invasão desde as estepes, tomando a Europa de assalto, como antes se receou de Átila e dos sultões otomanos. Não, era algo ainda mais assustador, mais inquietante: o “bandido amarelo” já estaria entre nós, dissimulado, aparentando levar uma vida de trabalho árduo, mas, na arrecadação da sua lavandaria, na cave da sua loja de artigos vários, congeminava planos diabólicos contra a civilização ocidental. Túneis sinuosos iam dos seus quarteirões até à doca mais próxima, por onde era levada a “carne branca”, assunto para resmas e resmas de páginas lidas com um incómodo fascínio. Adepto ferrenho de venenos e torturas, as maquinações do mestre do crime chinês obedecem sempre a uma sinistra e complexa funcionalidade, tendo como finalidade a destruição do homem branco. Quem não se recorda, com saudade, do Dr. Fu Manchu, essa sumidade do mundo do crime? Ou de Ming, o Impiedoso, que apesar de ser apresentado como um frio e cruel governante de um soturno planeta, não é mais do que um despudorado decalque de um “perverso chinês”…

E isto numa altura em que outro grande mal obscuro se manifestava: o “perigo judaico”. Curiosamente, isto dos perigos anda sempre aos pares…

Anos depois, e como se já não bastasse o terrível “perigo vermelho” (outro sucesso de vendas), renasceu a ameaça do “perigo amarelo”. Depois de 1949, voltou-se a encarar o chinês com desconfiança. Eram os “candidatos da Manchúria” que, depois de uma eficaz lavagem cerebral, eram colocados em lugares-chave da sociedade e da máquina administrativa, trabalhando em prol dos seus amos asiáticos; era o patrocínio estatal ao tráfico de heroína, uma estratégia política adoptada pela China para minar a juventude ocidental e assim levar o “mundo livre” à mais completa degeneração, apressando a sua já previsível queda; eram os menus duvidosos dos restaurantes chineses, nas imediações dos quais, dizia-se, deixavam logo de existir cães e gatos vadios (ou mesmo com coleira…); enfim, era tudo e mais alguma coisa… Bater em judeus havia deixado de ser politicamente correcto, por isso, sobrou para os chineses.

Mais uns anos se passaram desde então, e agora, a par da teoria da “guerra assimétrica” e dos ataques cibernéticos ao Ocidente, são as “lojas chinesas”, autênticas pontas de lança de uma ofensiva económica patrocinada pelo Estado chinês, a nova face visível do “perigo amarelo” (deixando de ser parceiro do “perigo vermelho”, entretanto extinto, e agora de braço dado com o “perigo castanho”); sábias palavras, as de AJJ, naquela tarde de domingo…

Ora, vem tudo isto a propósito de uma nova dimensão que é dada ao “perigo amarelo”, desta feita com um delicioso artigo de opinião de Maximiano Martins, intitulado “Um olhar chinês sobre a Europa” (DN, 11/07/2010, pág. 14), no qual o autor expressa um desassossego pelo que virá: a China enquanto dona e senhora dos destinos económicos do Mundo, relegando a Europa, a “velha Europa”, para um lugar obscuro, quase de figurante, à mercê de migalhas.

Baseou-se Maximiano Martins nas opiniões de um suposto expert chinês em Economia, o Prof. Kuing Yaman, que traça um futuro negro para a Europa, futuro esse que resulta de um estilo de vida e de uma forma de ser e de estar dos europeus que, reflectindo uma mentalidade típica, acabarão por ser a sua perdição. Não posso deixar de transcrever aqui uma passagem do artigo deste reputado elemento “socialista” português (sim, o socialismo português é especial…): “Dentro de uma ou duas gerações, ‘nós’ (os chineses) iremos ultrapassá-los [aos europeus]. Eles tornar-se-ão os nossos pobres. Dar-lhes-emos sacas de arroz…”. Delicioso, simplesmente delicioso. Já tenho lido muito sobre “História Alternativa”, com a derrota de Lincoln na Guerra Civil Americana, a vitória alemã na Segunda Guerra Mundial e essas coisas, mas há que admitir: a visão de helicópteros pesados chineses a largar sacas de arroz com a inscrição “Doação do Povo da República Popular da China” sobre ajuntamentos de europeus famintos, um pouco por toda a Europa, não deixa de ser… Bem, não deixa de ser interessante.

Os pontos de vista do Prof. Yaman levam a que quem tome conhecimento das suas teorias, sinta a urgente e imperiosa necessidade de mudar a postura e a maneira de ser europeia. Se a Europa quer sobreviver enquanto pode, tem que mudar. Tem que impor a si mesma um verdadeiro super-PEC (se Goebbels estivesse entre nós, arrebataria as multidões com um discurso apelando ao “totaler PEC”). Só assim, talvez (talvez…) possa safar-se… e não tenhamos de estender a mão ao “arroz de caridade”.

Se o Prof. Kuing Yaman terminou ou não o curso num domingo, isso não sabemos, mas uma coisa é certa: a existir, o Prof. Yaman certamente não seria tão obtuso nas suas opiniões. Com efeito, estas teorias do “venerável sábio chinês”, que tanta impressão causaram a Maximiano Martins, não passam, na verdade, de… um perfeito embuste! Pois é, a tal entrevista no YouTube de que fala o ex-deputado do PS na AR não é mais do que uma armadilha lançada a qualquer incauto, a ver se pegava (entrevistador e entrevistado falam, em mandarim, sobre a Exposição de Shangai, e apenas se juntaram as fantasiosas legendas). E não é que pegou? Pegou e de que maneira! Segundo o autor desta brincadeira (admitida muito antes da saída do artigo de Maximiano Martins), tentou-se demonstrar como, no que concerne à Internet, “as pessoas são crédulas e acreditam estupidamente em todas as asneiras que lhes impingem”. Temos pena, Dr. Maximiano Martins, temos pena… mas deixe estar, que não foi o único.

Um pormenor delicioso, no meio de tudo isto: o nome do reputado Professor chinês deriva de “Kouign amann”, um bolo bretão de cozedura lenta, à base de farinha de trigo, manteiga e açúcar, e cuja designação resulta dos termos no dialecto bretão para “bolo” (kouign) e “manteiga” (amann). O que só vem dar razão ao ditado popular segundo o qual “com papas e bolos se enganam os tolos”…

 

José Santos

 
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